segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Merz-Biolab lança concorrente para o Botox


SÃO PAULO - O mercado brasileiro de tratamentos estéticos é o segundo maior do mundo: está atrás apenas do dos Estados Unidos, explica Roberto Marques, presidente da joint venture Merz-Biolab.

A empresa, que surgiu de uma parceria entre a alemã Merz e a brasileira Biolab, trouxe ao mercado nacional uma alternativa ao produto derivado da toxina botulínica - que ficou conhecido por Botox, marca registrada do laboratório Allergan.

O produto tem aplicação reconhecida em tratamentos estéticos; entretanto, como explica Marques, há um amplo leque de utilização terapêutica, principalmente em casos pós-traumáticos, como depois de acidentes e em acidente vascular cerebral (AVC).

A brasileira Biolab, que planeja investimentos da ordem de R$ 50 milhões em um novo centro de pesquisas até 2011, tem três fábricas no País e em 2009 faturou R$ 540 milhões. No Brasil, o mercado em que a joint venture vai concorrer deve movimentar cerca de R$ 250 milhões este ano. A parceria, controlada pela empresa alemã - com 61% -, recebeu para este ano um investimento de 20 milhões de euros.

O programa "Panorama do Brasil" desta semana traz o principal executivo da Merz-Biolab, que pretende alcançar já no primeiro ano de atuação no País uma participação de 14% a 15% do mercado. A entrevista foi realizada pelo jornalista Roberto Müller e por Theo Carnier, editor-chefe do DCI, e Milton Paes, da rádio Nova Brasil FM.

Roberto Müller: Como você faz para conviver com a concorrência com o produto Botox, que quase substitui o nome do produto, como a Gilette, o Bombril e outros produtos?

Roberto Marques: Exatamente. A empresa alemã Merz, que é uma empresa de pouco mais de 100 anos, sempre se destacou na pesquisa de produtos para o sistema nervoso central - talvez o mais conhecido seja uma droga desenvolvida para o controle de Alzheimer -, e há mais ou menos dez anos eles resolveram entrar no Brasil através de licenciamento dos seus produtos. E um dos laboratórios escolhidos para isto foi a Biolab Sanus, que é um laboratório brasileiro bastante bem situado no mercado.

Depois de alguns anos eles desenvolveram esta toxina botulínica do tipo A, que é como nós a chamamos. Existem sete tipos de toxina botulínica, provenientes da bactéria que causa o botulismo, e a do tipo A é a mais utilizada em todo o mundo. Eles chegaram em 2005 com um produto chamado Xeomin, que na verdade lá fora se pronuncia "kséomin". E tem um significado: este "xeo" vem de ksénos, palavra do idioma grego que significa "estrangeiro", "estranho"; e "min", de mínimo. Assim, o próprio nome diz: mínima quantidade de corpos estranhos.

E, por que isso? Porque, diferentemente das outras toxinas botulínicas disponíveis no mercado, foi retirada a carga protéica do Xeomin, proveniente da toxina botulínica. Os complexos protéicos foram retirados através de um processo de purificação.

Com isso, o que esta diferença traz para o produto? Além de conseguir a estabilidade deste produto sem os complexos protéicos, o que permite que o produto fique armazenado sem refrigeração - você não precisa colocar o produto dentro da geladeira, então facilita muito o transporte, facilita também designer o lugar onde ele vai ficar estocado dentro da instituição, um hospital ou uma clínica. Também, potencialmente, este produto faz com que o paciente não desenvolva os anticorpos neutralizantes, os anticorpos de resistência. Porque o organismo tenta eliminar todo corpo estranho, criando anticorpos. Então, para os pacientes, a substância tem uso terapêutico, e aí nós temos uma série de utilizações superimportantes que vão desde espasticidade, que é a rigidez muscular decorrente de um acidente ou também de um acidente vascular cerebral, ou um derrame; como também desde os primórdios, quando a toxina começou a ser utilizada para a correção do estrabismo. Este último foi feito pelo laboratório Allergan, que é o pioneiro, que tem o Botox e, como vocês disseram, é a marca de referência. É como o Gilette, é como o Bombril, e realmente a Allergan tem uma contribuição muito grande neste mercado. Mas, como tudo que é pesquisado, vários produtos sofrem uma evolução, e o Xeomin é resultado desta evolução.

Theo Carnier: E quais referenciais vocês têm em relação ao Botox? Porque é inevitável que haja confusão por parte dos consumidores.

Roberto Marques: No caso, quando você compara - nós temos estudos clínicos que comparam - a performance do produto é muito parecida com a do Botox. Aliás, o Xeomin foi retirado da mesma cepa da bactéria que faz o Botox. Na verdade, o diferencial é o potencial muito menor de desenvolvimento de qualquer anticorpo de resistência. Assim, um paciente que tenha de utilizar a toxina para o resto da vida pode, depois de um tempo, desenvolver esses anticorpos e a toxina botulínica que é encontrada hoje no mercado para de fazer o efeito desejado.

No caso do Xeomin, por não ter esses complexos protéicos, a probabilidade de isso acontecer é praticamente zero.

Roberto Müller: Mas, por exemplo, o que é uso contínuo e frequente da toxina?

Roberto Marques: Quando você tem, por exemplo, distonia cervical: este é um dos casos em que é indicada essa substância. Pode ser que a pessoa sofra um acidente e tenha um problema de coluna que não possa ser operado, e que por um deslocamento ela passe a sofrer uma pressão maior nessa musculatura, e que tenha de tomar frequentemente analgésicos de uma potência bastante grande para conviver e gerenciar esta dor para o resto de sua vida.

Hoje aprovada até pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aqui no Brasil a utilização da toxina botulínica para o relaxamento desta musculatura e controle dessa situação de dor é amplamente praticada. Certamente para estes pacientes que precisam do uso sistemático e contínuo da toxina botulínica, o uso de Xeomin pode ser um grande avanço na medida em que a toxina sempre vai fazer o mesmo efeito pelo mesmo período.

Milton Paes: E não vai ter aquela questão, que você colocou bem, dos anticorpos. Acho que este é o maior problema, que, por exemplo, o concorrente enfrenta, não é?

Roberto Marques: É. Recentemente, nós participamos de um congresso mundial de neurologia e reabiltação, que desta vez aconteceu em Buenos Aires. E lá foi apresentado um trabalho por um professor alemão chamado Dressler que demonstrou: eles acompanharam alguns pacientes com quem já acontecia isso. A toxina que eles usavam não fazia mais efeito nenhum. Então, eles mediram todos os anticorpos, que estavam em contagem bem alta, e acompanharam esses pacientes por dois anos sem a administração de nenhuma toxina botulínica. Para muitos pacientes, o nível de anticorpos baixa, porque o próprio organismo vai se encarregando disso. Ao longo de pouco mais de dois anos eles viram que o nível de anticorpos baixou e então eles foram administrar o Xeomin. O paciente, então, teve uma resposta normal, como se ele não tivesse desenvolvido os anticorpos.

Milton Paes: Agora veja bem, a toxina é também usada para fins estéticos. Então o produto de vocês passa a ter vantagens também no uso estético? Ou seja, as pessoas não vão precisar fazer grandes aplicações ou aplicações sucessivas para manter o efeito estético?

Roberto Marques: Você tocou num ponto muito importante, porque os volumes aplicados para uso estético são menores do que os de uso terapêutico. Isto porque são grupos musculares menores, então você precisa de um volume menor. É engraçado porque até mesmo antes de a Merz se estabelecer no Brasil já havia um número considerável de e-mails de médicos brasileiros que perguntavam quando a droga iria estar disponível no Brasil. Porque alguns pacientes destes médicos, com este uso prolongado, reclamavam de que o efeito estava durando menos.

Era assim: em usos estéticos, em que é reaplicado a cada cinco ou seis meses, o paciente reclamava de que estava durando três ou até dois meses. E as toxinas botulínicas, os médicos sabem disso, as que até então existiam no mercado, não poderiam ser usadas apenas dois meses depois da última aplicação porque o potencial de produção de anticorpos aumentaria ainda mais. Por isso o intervalo era de até seis meses.

Então, realmente, a vinda do Xeomin para o mercado brasileiro permite ao médico que aplicava uma quantidade de toxina e sabia que não poderia aplicar nem um pouco depois de duas semanas, às vezes ele aplicava uma quantidade maior. Isso poderia causar um problema chamado ptose, que é a queda da pálpebra, e que só se resolve com o tempo, quando o efeito da toxina passar.

Então ele pode usar quantidades um pouco menores de Xeomin, por exemplo, e, se ele achar que depois de dois meses, ou um mês, será necessário um complemento, ele pode fazê-lo com segurança, porque ele não vai ter este potencial de desenvolver os anticorpos.

Milton Paes: O registro foi feito em dezembro de 2009 e foi liberada a comercialização a partir de junho de 2010, porque o processo não é tão simples assim, é um pouco complicado: o processo sair em dezembro e só a partir de junho começar a comercialização não acontece apenas nesse setor. É claro, por exemplo, que esse trabalho já vem sendo realizado em vários países; hoje vocês estão com um registro do Xeomin em quantos países?

Roberto Marques: Bom, nesta semana a gente teve a notícia de que foi aprovado também nos Estados Unidos o projeto de lei, então agora nós completamos 26 países onde o Xeomin é comercializado.

Milton Paes: Como é que está a penetração dele junto a todos esses segmentos no exterior? Pergunto para podermos até ter uma ideia, um parâmetro de como isso vai chegar aqui, no Brasil.

Roberto Marques: Hoje, diferentemente de alguns mercados - porque o produto chegou em um momento diferente também -, em média, nós estamos com 15% a 20% do mercado. Mas realmente o que a gente vê é que aqui, no Brasil, até pelo uso bastante grande da toxina botulínica, dado também ao tamanho da população nós esperamos chegar entre 14% e 15% no primeiro ano de comercialização, nos próximos doze meses.

Roberto Müller: Logo no primeiro ano vocês esperam atingir a média internacional?

Roberto Marques: Sim, porque na verdade o médico brasileiro é muito atualizado, ele vai para o exterior, ele participa de congressos internacionais... E já havia uma expectativa sobre a chegada do Xeomin aqui no Brasil porque eles vêm acompanhando que o produto está disponível na Alemanha desde 2005 e aguardavam a chegada aqui, no Brasil.

Theo Carnier: E agora, quais produtos vocês têm? Quais as linhas de produtos? Porque nós só falamos até agora de um, e acredito que haja mais, ou que esteja para sair.

Roberto Marques: Então no Brasil, como eu havia mencionado, a Merz iniciou através de licenças, então existe um produto, com o nome aqui, no Brasil, de Ebix, cuja substância é a memantina e é usado para tratar do mal de Alzheimer. Dentro do laboratório Biolab, que já havia licenciado alguns produtos na área de dermatologia, utilizados para cicatrização, tem produtos para prevenir a queda de cabelo.

E, no caso específico da Merz Biolab, além do Xeomin, que é a toxina botulínica, nós também comercializamos no Brasil com um produto chamado Radiesse, que é um preenchedor, um preenchedor facial e preenchedor para as mãos. E é um produto também com uma característica muito interessante, porque hoje em dia você tem um mundo de preenchedores, tanto a partir do ácido hialurônico como a partir de outras substâncias, que é o caso do Xeomin, que é a hidroxiapatita de cálcio, um produto muito conhecido pelos dentistas.

Roberto Müller: O que é um preenchedor?

Roberto Marques: Com o passar dos anos, as marcas de expressão vão se acentuando, então elas podem ser preenchidas por uma substância que depois vai sendo absorvida pelo organismo lentamente. Então você pode ganhar aparência jovial de alguns anos, até dez ou 15 anos a menos, através de um preenchimento que devolve à pele a aparência que ela tinha antes de aparecerem esses vincos, essas depressões.

Milton Paes: Roberto, nós três gostamos muito disso daí, viu? Principalmente de uns anos para cá, não é só mulher que está se preocupando com esse negócio de vaidade, o homem também. A gente está brincando, até para descontrair, mas esse tratamento, no caso, esse produto específico, ele demanda por exemplo, quanto tempo de tratamento? Porque certamente as clínicas de estética devem fazer isso.

Roberto Marques: No caso do Xeomin ele está na categoria de medicamentos, então ele vem em um frasco, liofilizado, e o médico vai reconstituí-lo com soro fisiológico. A partir daí, com uma seringa ele vai aplicar nos grupos musculares a que se destina. No caso do Radiesse, que é um preenchedor, ele está numa categoria chamada de produtos para a saúde, que é o antigo correlato. Então, na verdade, ele é quase uma bioprótese. No caso do ácido hialurônico, que existe no mercado, e do Radiesse, que é a hidroxiapatita, é uma substância que, depois de injetada - ela já vem dentro de uma seringa, totalmente esterilizada e ele então vai injetar com os cuidados assépticos e tudo mais - devolve aquela aparência de anos atrás para o paciente.

Essa substância, no caso do Radiesse, além de dar o volume para voltar às condições anteriores, ela também permite uma formação de um novo colágeno; essa substância fica no organismo por aproximadamente 18 meses, quando deve ser aplicado novamente.

No caso das mãos acontece a mesma coisa. Porque você tem a perda de parte da camada muscular e começa então o aparecimento daquelas veias, das depressões, os ossos que são mais marcantes, então a aplicação desse preenchedor devolve aquela aparência mais jovial às mãos das pessoas.

Roberto Müller: O Milton fez uma observação e eu gostaria de explorá-la mais um pouco. Que o uso seja para fins terapêuticos, não há dúvidas, mas para fins estéticos, substâncias como Xeomin para homens é realmente uma coisa verdadeira?

Roberto Marques: Não tenha dúvidas, nós estamos evoluindo muito: as barreiras de preconceito foram caindo, e o homem aqui no Brasil também está seguindo a tendência mundial. Porque tem um dado muito curioso: nós tivemos recentemente essa crise que atingiu muito fortemente os Estados Unidos e muitas pessoas perderam o emprego. Houve então uma procura muito maior por esses procedimentos nas clínicas norte-americanas, tanto para mulheres quanto para homens, porque eles queriam se sentir bem, ter uma aparência melhorada para até buscar uma nova oportunidade, um novo emprego.

Fonte: Danilo Sanches / www.dci.com.br